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Em que acreditar?
Paulo da Silva Neto Sobrinho

Amigos, sou evangélico, 45 anos, e tenho lido a revista Visão Espírita, onde também encontrei o site da Rede Visão. Fui educado no catolicismo, sendo parte de minha família católica e outra espírita. Quando adolescente, freqüentava a casa de meus tios espíritas, mas não aceitava a doutrina, por ser católico e, em parte, também, por que havia um livro psicografado de Ramatís (espírito), que descrevia “vida inteligente (semelhante á humana, mas superior) em Marte, com cidades e tudo”, e eu não acreditava naquilo. Hoje sabe-se, com certeza, que tal planeta é totalmente árido, e a única esperança dos cientistas é encontrar vestígios de vida microscópica. Aos 30 anos, tornei-me evangélico (batista), e, assim, estou até hoje. De um pouco tempo para cá, entretanto, dei de questionar internamente, e em conversas com minha esposa, a questão bíblica do inferno, condenação eterna, a existência de um adversário de Deus (o diabo), etc... Curiosamente quase em seguida, vi nas bancas a revista Visão Espírita e começando a lê-la, fiquei surpreso com o fato de que o pensamento espírita batia com meus questionamentos. Para citar um fato, conversava com um amigo, também evangélico, perguntei-lhe: “... como vai ser, quando chegarmos ao Céu, e não encontrarmos muitos de nossos parentes queridos e amigos?” --Ora, não vamos ter consciência disso, respondeu. “Não nos lembraremos deles, não saberemos que estão no inferno (permitam-me a letra minúscula, pois este lugar não merece maiúscula), pois no Céu não há tristeza.” Legal, né? Então seremos enganados! Confesso humildemente, que continuo evangélico, mais por medo que por amor, temendo que a Bíblia esteja certa no que se refere a isso, afinal são muitos anos imerso nesta cultura, embora não a aceite filosoficamente. Por outro lado, meu maior temor é que não exista Deus ou espíritos, e que após a morte, é o nada, a não existência (afinal não nos lembramos de nada antes de nascermos é porque nunca existimos e não existiremos mais depois). Mas tomara que não seja assim. Espero que de alguma forma Deus possa me revelar a verdade (não por meus pouquíssimos méritos, mas por sua bondade e amor). Desculpem-me ocupar sua caixa postal com tantas palavras, mas precisava mesmo escrever. Por fim, informo que não sou "ciceriano", respeito as demais formas de pensamento, e estou aberto a conversar com qualquer pessoa, independemente de suas crenças. Procuro amar a todos como irmãos, e praticar o que julgo ser o verdadeiro amor de Deus e Jesus. Orem por mim, e que Deus os abençoe. Luiz Francisco --Barra do Piraí – RJ.

Resposta ao Luiz Francisco:

Luiz, realmente entendemos o seu dilema. Se hoje não freqüentássemos nenhuma corrente religiosa, e nos propuséssemos a seguir alguma, estaríamos numa grande encruzilhada, pois qual delas é a verdadeira? Todas se dizem que são a única verdadeira. Entretanto, se formos pesquisar, veremos que o livro base delas não é o mesmo.

Ora, a verdade não poderá estar em coisas que divergem. Veja, por exemplo, a Bíblia Católica possui 73 livros, enquanto que as protestantes, apenas, 66. Assim, perguntaríamos qual delas possui a Bíblia verdadeira? A isso somamos as divergentes interpretações para um mesmo texto. Se não usarmos o bom senso e a lógica, não dá para tomar a decisão certa.

Observamos que, através dos tempos, e ainda hoje, a Bíblia é usada para amedrontar as pessoas. Querem que tenhamos “temor” a Deus, mas desta forma não dá para conciliar com a idéia de um Deus-Pai apresentada por Jesus.

Percebemos, também, que para sustentar posições de poder e dinheiro, impuseram a todos nós que ela é de capa a capa a palavra de Deus. Entretanto, quando a lemos, ficamos em dúvida se, realmente, tudo que ali se encontra é revelação divina.

Temos que pressupor que Deus, a Inteligência Suprema, a causa primeira de todas as coisas é infinitamente perfeito, por isso nunca erra, nunca volta atrás em qualquer decisão tomada, pois, se assim o fizesse, não seria perfeito. Ao pensarmos bem sobre isso, chegaremos à conclusão de que Ele não poderia ter se arrependido de haver criado o homem, por exemplo, pois importaria dizer que Ele não sabia que o homem iria errar, ou que o homem não era uma boa obra Sua. Entretanto ao lermos a Gênesis, encontramos Deus dizendo, após cada coisa que criava, que era boa.

Diante destas e outras, passamos a questionar a Bíblia sob o aspecto de que tudo o que ali se encontra seja revelação divina. Resolvemos fazer uma leitura, não um estudo aprofundado, e ficamos surpresos com o resultado, pois encontramos nela incoerências, contradições, lendas, mitologia, etc, que forçosamente teremos que admitir que é fruto da ignorância dos homens, e não, produto de inspiração de Deus.

Veja, por exemplo:

Em Gênesis é dito que Deus entre os castigos de Eva teria colocado a dor no parto. Perguntamos: as fêmeas dos animais parem sem dor? Se dissermos que sim, e a ciência prova que sim, estaremos admitindo que a dor do parto nos animais foi fruto do pecado de Eva? Ser governada pelo homem é um outro castigo dela, mas isso é fruto de uma sociedade altamente machista ou é mesmo castigo divino? Ao homem é que Deus disse: “tu és pó e ao pó hás de tornar”. Perguntamos: por que as mulheres morrem, visto que não vieram do pó, mas sim da costela do homem? Mais ainda, por que os animais morrem tendo em vista que eles não cometeram nenhum pecado, embora não sejam também criados do pó? É justo alguém ser castigado pelo erro do outro?

Quem ler a Bíblia com um pouco de senso crítico, encontrará tantas coisas absurdas que em sã consciência não podem ser atribuídas a Deus, mas sim, aos próprios homens em sua completa ignorância a respeito da Divindade Suprema.

Até mesmo nos Dez Mandamentos encontramos alguma coisa incoerente. Em um deles é dito: “não cobiçar a mulher do próximo”. Ora, se isso tiver vindo de Deus, teremos que aceitar que para as mulheres os mandamentos são apenas nove, e não, dez, mais ainda, que elas podem desejar o marido da outra. Veja quanto absurdo.

Isso é uma pequena amostra do que se pode encontrar lá. Talvez seja por isso que antigamente a leitura da Bíblia era proibida aos leigos, somente os padres tinham acesso a ela, bem como o “dom” de interpretá-la. Por isso o terrorismo bíblico continua até os nossos dias, pois não nos deixaram estudá-la, questioná-la, entendê-la e dela separar o joio do trigo. Quem sabe o tempo da colheita tenha chegado, pois, recentemente, têm surgido vários livros contestando a “inerrância” da Bíblia. Nós mesmos iremos lançar, em breve, o livro: “As Traduções e Interpretações da Bíblia Sagrada à Moda da Casa”, onde provaremos tudo o que estamos dizendo sobre ela.

Quanto à questão da interpretação, vejamos alguns textos, a título de exemplo:

1 Timóteo 2, 4: “Ele quer que todos os homens sejam salvos e cheguem a conhecer perfeitamente a verdade”, se Deus quer que todos sejamos salvos, todos nós o seremos, basta cumprir sua vontade: “amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo”. Qual corrente religiosa prega tal ensinamento?

Efésios 4, 6: “Só há um Deus que é Pai de todos, e está acima de todos, age por todos e em todos”. Onde fica o tal de “três em um”? Onde Deus exclui quem quer que seja da condição de filho, já que Ele é Pai de todos?

1 Coríntios 15, 50: “A carne e o sangue não podem herdar o reino de Deus, nem o que é destrutível a indestrutibilidade”. Qual das religiões diz que ressuscitaremos em espírito, e não, no corpo?

Romanos 14, 22: “A convicção que tens, guarda-a só contigo e aos olhos de Deus. Feliz o homem que não se julga culpado pela decisão que toma”. Isso condiz com o que a maioria das religiões pratica? Não querem, a todo custo, que sigamos seus preceitos quase na marra?

Hebreus 8, 7 e 13: “Se, na verdade, a primeira aliança tivesse sido sem falhas, não teria cabimento ser substituída por uma segunda. Dizendo aliança nova, Deus declarou antiquada a primeira. Ora, o que se torna antiquado e envelhece está próximo de desaparecer”. Apesar da clareza do texto ainda se encontram apegados ao Antigo Testamento, pelo menos a maioria delas.

Mateus 16, 27: “Porque o Filho do homem há de vir na glória de seu Pai com seus anjos: e então recompensará a cada um segundo suas obras”. Mas não dizem que é somente a fé que salva? Foi o que Jesus disse?

Veja que em poucas passagens, podemos encontrar as interpretações equivocadas, ou quem sabe, são dirigidas mesmo para dominar seus profitentes.

Não podemos deixar de levar em conta que os judeus foram dominados por vários povos, e, conseqüentemente, incorporaram em suas práticas religiosas coisas das religiões ditas pagãs. Do zoroastrismo persa tiraram a idéia da dualidade de deuses, passando para as outras gerações a imagem de Jeová (Deus do bem) e do diabo (deus do mal). Mas com que objetivo isso ainda existe? É para implantar o “terror” dentro das religiões, pois só assim conseguem dominar seus adeptos, explorando-os ou seriam suas presas?

O que existe e devemos ter como absoluta certeza é o Deus único, o eterno bem. Já que tudo o que existe é criação Dele. Se admitimos o diabo, teremos que supô-lo criação de Deus. Absurdo. Dizem alguns que o diabo é um anjo decaído, mas se aceitarmos isso, também teremos que admitir que Deus não foi perfeito, ao criar os anjos, visto que alguns deles chegaram a decair. Absurdo em cima de absurdo.

Junto com a idéia de demônio temos a idéia do inferno como sendo um local de suplício onde Deus coloca as almas pecadoras num castigo eterno. É frontalmente contrária à justiça divina, pois já que nosso erro não foi eterno, nossa pena não poderia ser eterna. Por outro lado, se Jesus disse que “o reino de Deus está dentro de nós”, é porque, via de conseqüência, o inferno também lá está. Assim o céu e o inferno são estados íntimos da alma, não lugares geográficos ou localizados em alguma parte.

A realidade de sermos espíritos é um fato que deveria ser realçado por todas as religiões. Jesus, de certa feita, disse: “que Deus não é Deus dos mortos, mas sim, dos vivos, referindo-se à Abraão, Isaac e Jacó”, querendo com isso dizer que eles estavam vivos, apesar de mortos na carne.

Podemos, ainda, comprovar a existência do espírito na passagem da transfiguração de Jesus no monte Tabor, onde na presença de Pedro, Tiago e João, Ele se transfigura, e aparecem os espíritos de Moisés e Elias conversando com Ele. Mais ainda, sabemos pelo Evangelho que após sua morte, Jesus apareceu aos seus discípulos, e segundo Lucas, ficou entre eles por 40 dias.

Outras ocorrências podem confirmar a existência do espírito. Quantas pessoas, principalmente no meio católico, afirmam ter visto uma aparição de um Santo. Pesquisas em busca de desvendar o que teria acontecido com pessoas que passaram pela “morte aparente”, as chamadas EQM – Experiências de quase morte -, vêm comprovando que muitas destas pessoas conseguiam descrever o que lhes tinha acontecido nesse período, provando que o espírito não necessita do corpo físico para sobreviver.

Não podemos deixar de falar sobre as pesquisas que estão sendo desenvolvidas para captar as mensagens dos espíritos desencarnados por meio de aparelhos eletrônicos – Transcomunicação Instrumental -, tais como: rádio, TV, gravadores e até mesmo por computadores.

No campo da medicina vem ganhando cada vez mais terreno a TVP – Terapia de Vidas Passadas -, que, além da reencarnação, prova que somos espíritos imortais e sobrevivemos após a morte do nosso corpo físico.

Enfim, podemos perceber que são vários os fatores que nos levam a ter a convicção da imortalidade da alma, sem precisarmos recorrer ao Espiritismo para isso.

Já que existe a vida após a morte, e o céu e o inferno são estados íntimos d’alma, por que motivo não iremos encontrar-nos com nossos entes queridos, que partiram antes de nós? Uma mãe ficaria feliz separada dos seus filhos a quem dedicou tanto amor e carinho? Somente fanáticos e cegos podem alimentar tamanho disparate.

Deus é amor, e todos, que vibram nesta faixa de amor, atraem-se. Assim, todos nós que temos verdadeiramente amor ao nosso semelhante, quer sejam parentes ou não, iremos encontrá-los na vida espiritual. Até quando o homem vai continuar ignorando que a nossa verdadeira vida é a espiritual? Viemos de lá e para lá retornaremos um dia, quando deixarmos nosso corpo físico. Não há sentido algum Deus nos criar seres imortais para vivermos somente uma vida num corpo físico aqui na terra, e com o risco de irmos, em definitivo, para um sofrimento eterno, pois Deus é amor e onisciente.

E já que dissemos que Deus é amor, Ele, por questão de justiça, não poderá selar nosso destino por uma vida de apenas uns 100 anos, período insignificante perante a eternidade.

Quanto ao que você disse sobre Ramatís somos recomendados a observar as instruções de João contidas em sua primeira Epístola, Capitulo 4, Versículo 1:“Amados, não creiais a todo o espírito, mas provai se os espíritos são de Deus, porque já muitos falsos profetas se têm levantado no mundo”.Assim não é pelo fato de um espírito ter dito algo, que iremos aceitar. Só aceitaremos quando passar pelo controle universal, ou seja, vários outros espíritos, vindo de médiuns espalhados pelo mundo afora disserem a mesma coisa.

Por outro lado, sem querer defender espírito algum, só o fato de uma sonda ir a um planeta e não constatar vida, não quer necessariamente dizer que ela não exista, pois poderá existir algum tipo de vida que nós não conhecemos, ou mesmo numa dimensão que não conseguiremos enxergar.

Para, finalizar, faça uma leitura de nossos textos “Espiritismo x Cristianismo”, “Presbiterianismo e Reencarnação” e “A Palavra de Deus na Bíblia” que se encontram no site da Rede Visão www.redevisao.net, e veja se nossos argumentos são coerentes ou não com os ensinos de Jesus.

Esperamos e torcemos para que seus questionamentos possam servir para que você encontre a verdade. Mas, para isso, será necessário ler muito, e jamais deixar de questionar, pois no questionamento é que nós valorizamos a inteligência que Deus nos deu.

Especificamente em nosso caso, nos vinculamos onde o questionamento é incentivado, onde se respeita a opinião dos outros, não dizendo que somente quem está nela é que se salva, mas todos os que praticam o bem, e por derradeiro, podemos pensar pelas nossas próprias cabeças.

Que Jesus, o nosso Mestre, possa o ajudar a encontrar o seu caminho, sem medo e temores, já que Ele é o caminho, A VERDADE, e a vida.

pauloneto@redevisao.net

Resposta do Luiz Francisco:

Amigo Paulo Neto e Alamar,

Parece-me que já os conheço há tempos! Muito obrigado pelos esclarecimentos e, certamente, que autorizo a publicação disso no site da Rede Visão. Nunca havia travado contato com pessoas tão maravilhosas como vocês passam ser, mesmo no meio evangélico. Tenho recebido muitos e-mails de divs. pessoas, na maioria espíritas e algumas evangélicas, e tenho respondido a todos. Vejam só o que Deus faz, através de alguns questionamentos, estou tendo a oportunidade de fazer vários amigos!! Estou lendo não só o que me enviaram, mas também bons livros, como Deus e Eu Uma História de Amor, de Dr. Cid Paroni Filho, médico espírita de São Paulo, e alguns de Divaldo P. Franco, entre outros. Muito obrigado, e que Deus os abençoe!! Luiz Francisco. e-mail : xikimchess@ig.com.br , Barra do Piraí - RJ.